quinta-feira, 9 de outubro de 2008

"Pecadinho" não faz mal à ninguém


No mundo musical, assim como em outras esferas de nossa sociedade, rotular é uma prática mais do que comum. Sempre ouvimos frases do tipo, “Fulana é cantora de samba”, “Aquele grupo toca rock”, “O cantor tal é de MPB”. Seguindo essa linha de raciocínio, a Bahia, “terra do Axé”, só lança artistas nesse estilo, certo? Erradíssimo!

É um erro essa rotulação em um país com tanta diversidade cultural como o Brasil. Para derrubar de vez essa necessidade de rotulação, são muitos os artistas que não se definem pertencentes a um único estilo musical. E, para provar que Bahia não é só lugar de Axé, apresento-lhes Márcia Castro, artista que fugiu de todo esse estereótipo relacionado à música baiana.

Márcia iniciou sua carreira em Salvador em 1994, aos 16 anos, cantando clássicos da música brasileira em barzinhos. Seu pai, trompetista na adolescência, teve grande influência para que ela estivesse sempre imersa no mundo musical. Em sua casa, ela ouvia de tudo, desde jazz e MPB, até música erudita, além de explicações e curiosidades musicais que ele contava.

A experiência no teatro, tendo contato com pessoas do meio artístico e fazendo participações esporádicas em peças, ajudaram em sua postura no palco. Segundo a cantora, os exercícios do teatro deram segurança de estar ali, de conseguir estar mais relaxada e mais espontânea, entendendo as canções e dando vida a esses inúmeros personagens que brotam delas. “Além disso, a disciplina dos atores é sempre inspiradora”, diz.

Márcia ganhou diversos prêmios ao longo de sua carreira, entre eles o Troféu Caymmi de “Cantora Revelação”, em 2004 e o Festival de Música da Bahia, em 2005, além de ter sido finalista do Prêmio Tim esse ano.

No ano de 2006, ela conquistou o Prêmio Braskem de Cultura e Arte, categoria Música, premiação de maior relevância no cenário artístico da Bahia. Esta premiação tornou possível a gravação de seu cd, “Pecadinho”, lançado no ano seguinte

A escolha do repertório, em princípio, foi guiada por um show que Márcia fez em 2003, “No Arco da Lua”, em que ela cantava músicas de compositores baianos do circuito da MPB que são pouco gravados. Aos poucos, começou a ouvir o que tocava nesse lugar em que ela fazia o show, canções da década de 70 de compositores à margem do grande circuito comercial, percebendo a relação que ela tinha com esses artistas, da maneira como eles estavam inseridos no cenário. “O primeiro passo sempre foi intuitivo, depois eu pensava na unidade que me conduzia a essas escolhas. Depois de escolher 70% das canções que queria gravar, percebi que existiam nelas coisas como sensualidade, sinuosidade, luxúria, até a própria transgressão, sempre muito sutil” conta ela. O cd conta com músicas de Tom Zé, Jorge Mautner, Sergio Sampaio e Itamar Assumpção. Na faixa “Barulho”, Zélia Duncan divide a música com Márcia. E a música “Queda” esteve presente na trilha sonora da novela da Rede Globo “Ciranda de Pedra”.

Como todo artista independente, Márcia enfrenta dificuldades com a falta de infra-estrutura para a divulgação do seu trabalho. Mas, hoje, esses artistas contam com importantes ferramentas, que ajudam a driblar as dificuldades de não se ter uma gravadora. E uma das opções é a Internet. Sites como o Myspace estão entre os preferidos dos artistas. Mas, segundo a cantora, ainda assim é difícil ser independente, pois “persiste o circuito de comunicação pesado que está atrelado à grana, e o independente não tem grana”.

Comecei o texto falando sobre rotulação, e volto a ele para explicar porque essa idéia não tem vez no cenário musical atual. E ainda atrapalha a carreira de quem não segue esses rótulos. E esse é o caso de Márcia, que se mudou para São Paulo porque o espaço que tem, em Salvador, para músicas fora do Axé ainda é muito pequeno. “É triste saber que temos que sair da Bahia para tocar a carreira de um modo mais confortável, menos desesperado e desesperançoso”.

Pegando carona do título de seu cd, é um pecado não ter a chance de apreciar trabalhos de tanta qualidade como o de Márcia Castro. Deixemos os rótulos de lado. É hora de conhecer algo muito mais rico, chamado, simplesmente, de música brasileira.


Conheça o trabalho de Márcia Castro:

Próximo show:
. Mistura Fina
Dia 14/10
Às 21h
Av. Rainha Elizabeth da Bélgica, 770 - Ipanema

4 comentários:

Sylvinha Assis disse...

é.. infelizmente quem canta na Bahia "tem" que cantar Axé... Pitty até tentou mudar isso, mas...

E é realmente um pecado nem todo mundo ter oportunidade de ouvir a Marcia...

Geeeenteeee.. ouçam "barraqueira".. adoooroo!! ahahaha
E ouçam tbm Queda, pecadinho e futebol para principiantes. São as q eu mais gosto!!! =D

Lusi Martinez disse...

Quero mesmo é saber quando ela vem à Porto Alegre.. Aliás, VOLTAR à Porto Alegre...

E eu tenho pena de quem perdeu a participação da Márcia no show da Mercedes!!!!

Madamefala disse...

oi Carol te vi no orkut por intermédio da comunidade Doces Cariocas...aí cai aqui no teu blog.....cara como vc é ligada a cultura....muito legal isso.Dicas de várias cantoras boas...shows no Rio, etc.
Adorei o espaço, vou escutar as outras cantoras que não conhecia e ficar vindo sempre aqui.

bjocas!!!!

Danny disse...

Oi, Carolzita!!!! Tudo bom?
Fui intimada a participar de uma brincadeira entre blogs, e agora estou te intimando! rsrs...
Vai lá no meu e participa!!!
Beijos!